21, Mão na Cabeça: filme aborda a chacina do Vigário Geral, no Rio de Janeiro

Prisma da Mata é Clarissa em 21, Mão na Cabeça

Depois de sofrer um atentado a tiros e ser levado para o hospital, os destinos se cruzam e Leonardo (Roberto Bomtempo) conhece Clarissa (Prisma Da Mata), enfermeira que é uma das vítimas da chacina de Vigário Geral há exatos 29 anos atrás. Eles descobrem a possibilidade de uma história de amor impossível, mas o destino reserva um final surpreendente.

Esse é o ponto de partida de 21, Mão na Cabeça, filme que retrata a chacina de Vigário Geral, que deixou 21 mortos, em 1993. Dirigido por Milton Alencar Júnior, a produção da ficção teve início entre os anos de 2007 e 2009, quando filmava o documentário Lembrar Pra Não Esquecer, que também tratava da chacina. “Na época encontramos pessoas ligadas aos familiares da vítima. Essas pessoas têm associação de familiares e amigos da chacina de Vigário Geral.  Fomos a campo pesquisar e nos envolvemos muito com familiares, a Iracilda, uma pessoa que eu adoro de paixão, o desembargador MP, coronel Brum e Dra. Cristina Leonardo, advogada que nos aproximou desse processo. No envolvimento com a comunidade vimos que precisávamos construir mais e daí veio a ideia para o filme”, explicou. 

Segundo Milton, durante as filmagens do documentário, ele conheceu a jovem que se tornaria a personagem central de 21, Mão na Cabeça. “Depois que começamos a ideia do documentário, conhecendo alguns personagens reais daquela tragédia, conheci aquela criança que viu o acontecimento por baixo do lençol. Essa moça, que hoje deve estar com uns 35 anos, deu base a história central de “21, mão na cabeça. Ela viveu aquilo ali, acrescentamos alguma ficção né, mas a “Clarissa”, que é um nome fictício, viveu os acontecimentos, enxergando e protegida por um lençol jogado pela avó em cima dela, mesmo assim ela conseguiu ouvir e ver tudo por um buraquinho no lençol”, lembrou.

Milton dirigiu longa baseado na chacina do Vigário Geral

Milton ainda fala em como a ficção foi colocada no contexto de uma chacina e como isso ajudou a contar a história de tantas “Clarissas” que vivem situações parecidas até hoje no Brasil:

“A ficção nos ajudou a transformar a vida dessa moça e encontrar um desses personagens policiais, que estavam no dia do crime (na família dela morreram 7 pessoas), a história se constrói a partir daí, um fato real e um sentimento doloroso que encontrei em familiares de vítimas: a impotência. A luta delas por justiça. Conheci pessoas que foram embora amarguradas, pois não conseguiram suportar a ideia de conviver com aquilo sem poder fazer nada. Essa impotência, do plano da realidade pra ficção, motivou uma reação inusitada dessa personagem.”

Alencar ainda fala que contou com o apoio dos familiares e das pessoas que moram e viveram na comunidade. Em 2023, ano que a chacina completa 30 anos, o diretor não vê muita diferença no tratamento, na verdade fala da maior brutalidade nas comunidades e com a população mais pobre.

“Infelizmente não há motivos para comemorar, nada mudou, ou melhor, mudou, mas para pior. O que resta é apenas lembrar e não esquecer de todo o sofrimento, dor, crueldade e banalização da violência. A Chacina de Vigário Geral inaugurou um ciclo de reação enorme: o Viva Rio, o Afro Reggae, todos são construções a partir daquela situação que chegou a um extremo. As reações foram imediatas e a gente conseguiu se defender. De alguma forma existe a possibilidade de ter sido feita um pouco de justiça, acusando algumas pessoas e prendendo outras. Porém com certeza nunca vai se fazer justiça de verdade, com relação aquele fato. Mas hoje as coisas estão muito piores”, finalizou Milton.

21, Mão na Cabeça está disponível no streaming do NOW.

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