A Viagem de Pedro: a retratação ambiciosa da desconstrução do ex-imperador

Cauã estrela A Viagem de Pedro. Foto: Fabio Braga/Biônica Filmes

A Viagem de Pedro é daqueles filmes super ambiciosos. Dirigido por Laís Bodanzky, o longa-metragem tem a proposta de desconstruir a reputação e a imagem que se tem do ex-imperador do Brasil, Dom Pedro I, aqui interpretado por Cauã Reymond, dos livros de histórias e do boca a boca de todo mundo que já passou pelo Brasil nestes mais de 500 anos. Contudo, é preciso ressaltar que o roteiro escrito por Laís ao lado de Chico Mattoso não é tão corajoso como se espera a ponto de mudar a percepção heroica que se criou de Dom Pedro I, que nada mais é que um homem comum sofrendo com as pressões, agonias e devaneios sobre o seu poder. O que acontece, na verdade, é até humanizá-lo a ponto de aproximá-lo com os sentimentos que sentimos quando estamos em uma situação de conflitos e dúvidas sobre nós mesmos, especialmente, quando não se pode contar com ninguém.

Exibido fora de competição do 50º Festival de Cinema de Gramado, A Viagem de Pedro também abre mais espaço para interpretação de como foi essa viagem para mulheres e pessoas negras que estavam na embarcação, para que a história tenha mais de um viés pessoal, retratando o que essas minorias esperavam ou falavam do Imperador, na época, e das suas ambições, enquanto eles ficavam à sombra ou à disposição do príncipe. Neste aspecto, o filme poderia ter apostado mais, justamente por ter essa liberdade poética e criativa de dar voz para as pessoas escravizadas recém-libertas que estavam nesta tripulação. Afinal, o cinema brasileiro ainda é carente em registros sobre esse período da nossa História, principalmente pelo ponto de vista dos negros. O drama também deixa a desejar com as mulheres que fizeram parte da trajetória do primeiro imperador – Leopoldina (Luise Heyer) e Domitila (Rita Wainer) – que têm uma contribuição superficial no filme, sendo tratadas apenas como ressentidas ou apenas como objetos sexuais. Claro, é pelo ponto de vista de Dom Pedro I que percebemos a presença destes grupos, mas, ainda assim, é um ponto desperdiçado.

Filme é superficial com as mulheres. Foto: Fabio Braga/Biônica Filmes

Esteticamente, A Viagem de Pedro é estupendo. A direção de fotografia de Pedro J. Márquez e a direção de arte de Fernando Gurzoni formam um casamento perfeito por conseguir nos transportar para a época do drama em seus enquadramentos que nos fazem ter a sensação de claustrofobia exata daquela viagem conturbada e com os tons sombrios que acompanham o clima tenso entre os tripulantes que ou não respeitam o príncipe ou não dão a mínima para a crise na Família Real. E o que falar de Cauã Reymond. É um dos papéis mais desafiadores da sua carreira. Ele, que também assina a produção do filme, se dispôs a representar a masculinidade tóxica, as fragilidades e ao íntimo de Dom Pedro I, uma figura histórica que é vista de modo ainda muito conservadora, mas que pelas mãos do ator, possui uma caracterização humanizada, especialmente no que diz respeito às suas preocupações políticas, sociais e da própria saúde. Cauã se sai bem nesse papel histórico. Isso não há dúvidas, porém, ainda espero algo que realmente me faça aplaudi-lo de pé.

A Viagem de Pedro possui referências de outro filme de Bodanzky, Bicho de Sete Cabeças (2000), em que as alucinações atormentam o protagonista e dão o tom da narrativa, e nesta recente produção, podemos ver essa marca característica também dar conta da história. Uma boa ousadia, ainda mais para um drama histórico. É uma pena que as expectativas tenham sido elevadas para A Viagem de Pedro, porém é preciso reconhecer que a obra se aproximou da honestidade que tanto precisamos no cinema ao conhecer as figuras históricas que formaram o nosso País.

  • Filme assistido no 50º Festival de Cinema de Gramado

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