Filho da Mãe: um documentário para matar saudade de um fenômeno chamado Paulo Gustavo

Paulo Gustavo (1978-2021) foi um fenômeno. Com um pouco mais de 15 anos de carreira, o ator marcou, definitivamente, presença por onde passava. No documentário Filho da Mãe, disponível na Prime Vídeo, temos a chance de matar um pouco de saudade desse ser humano incrível que nos deixou cedo demais após ser mais uma vítima da Covid-19, em meio a um governo negligente que atrasou a compra de vacinas que poderiam ter salvado a vida de Paulo e de muitas outras pessoas que faleceram no Brasil por conta do vírus.

Dirigido por Susana Garcia, amiga do artista, o filme acompanha os bastidores da turnê Filho da Mãe, um show de comédia que Paulo Gustavo realizou ao lado da mãe, Déa Lúcia, em 2019. O que antes era pra ser um simples making of se tornou uma homenagem emocionante ao biografado com arquivos pessoais, além depoimentos de amigos, familiares, famosos e fãs que se reuniram para nos contar um pouco das memórias que compartilharam ao lado dessa energia radiante que era Paulo Gustavo, sendo impossível não se sentir contagiado pela alegria e pelo bom humor que ele exalava. Seja pelas palavras de quem conviveu com ele ou pelos registros antigos, sentimos a verdade de tudo que acontece, pois vem do coração de quem tinha vontade pela vida.

Abraçando causas sociais e pessoais

Sempre com aquele humor ácido e debochado, Paulo Gustavo tinha uma identidade definida, uma confiança humilde e um jogo de cintura singular ímpar. Com ele, não tinha tempo ruim. Desde cedo, ele tinha essa pressa de viver, de ser ativo, de realizar os seus sonhos, pois parecia um atestado de que precisava marcar território por todos os lugares que passava. Durante o filme, Paulo confessa que não se considerava um militante e muito menos ativista, mas que entendia que conseguia fazer política usando a sua arte e a sua própria imagem pessoal.

Assumidamente gay, o humorista fez do seu casamento com o dermatologista Thales Bretas, com quem teve dois filhos – Gael e Romeu -, um grande gesto público para que outras pessoas LGBTQIA+ pudessem se inspirar pessoalmente e, também, para que os mais conservadores pudessem se sensibilizar e se libertarem dos preconceitos tão tradicionais deste país homofóbico. Afinal, Paulo se tornou um sucesso de público com os projetos que levavam o seu nome, estimulando que muitas pessoas o acompanhassem por onde é que fosse, inclusive no âmbito pessoal. Por isso, nunca escondeu as suas origens e a sua essência e, fazendo disso, de certa forma, uma bandeira para que mais pessoas o seguissem e respeitassem. 

A estreia em outra dimensão

Filho da Mãe não parece um documentário tradicional por conta da tamanha proximidade que temos com o conteúdo em cena. Por ter sido dirigido por uma amiga íntima, o filme sabe exatamente o que mostrar e onde chegar. Afinal, o benefício da intimidade nestas horas é uma vantagem pelo conhecimento do biografado por saber extrair o que ele tem de melhor e também pior. Mas como o próprio Paulo Gustavo brinca: “até a minha parte ruim é boa.” É nessas horas que simplesmente me questiono: por que, sabe? Por que ele teve que partir tão cedo? É inadmissível. 

A partir dos anos 2010, Paulo Gustavo foi responsável por inovar o jeito de se fazer comédia no Brasil. Ele levou milhares de espectadores às salas de cinema para assistir a trilogia de Minha Mãe É uma Peça, chegando a atingir o recorde de bilheteria com 11 milhões de espectadores que foram conferir o desfecho de Dona Hermínia no último filme lançado em 2019. E não foi só isso que o carioca de Niterói fez não. Em meio a uma terrível pandemia, que interrompeu a realização de diversos eventos culturais, muitos dos seus colegas de profissão passavam necessidade e ele não deixou ninguém na mão nesse período. Não é à toa que seu nome virou Lei, virou referência cultural e política. Por essas e outras que podemos ter certeza que Paulo Gustavo não passou em vão nesta dimensão. 

Na derradeira do documentário, Déa Lúcia faz uma bela reflexão: “Paulo Gustavo estreou fazendo Minha Mãe é Uma Peça no dia 04 de maio de 2006 e faleceu no dia 04 de maio de 2021, 15 anos depois, às 21h12, no horário em que ele começou a peça. Dá a impressão de que nesse 04 de maio de 2021, ele foi estrear em outro lugar”. E as mães estão sempre certas.  

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