SOL: um filme para entender o silêncio do passado para consertar o presente

O quanto vale a pena se reconectar com o passado? Como é possível criar uma conexão com o presente? E como fazer o futuro ser diferente? São as questões pertinentes em SOL, filme dirigido por Lô Politi, que acompanha a história de Theo (Rômulo Braga), um pai recém-separado, que não consegue se reconectar com Duda (Malu Landim), sua filha de dez anos.

Um dia, recebe uma ligação e é obrigado a viajar com a menina para o interior da Bahia em busca do próprio pai Theodoro (Everaldo Pontes), que o abandonou quando criança e está em estado delicado num hospital. O convívio forçado com o pai que ele odeia e a imediata conexão de sua filha com o avô testa todos os seus limites, mas lhe dá a chance de se aproximar de quem mais ama.

A diretora Lô Politi repete em SOL, um estilo presente em Alvorada (2021), documentário que acompanha os últimos dias da ex-presidente Dilma Rousseff no Palácio da Alvorada durante o processo do impeachment, que é a absorção do silêncio, da observação dos detalhes, do que está imprimido no olhar dos personagens mas não é traduzido em palavras. Lô, que também assina o roteiro, faz desse filme uma jornada em busca de conexão familiar entre pessoas que já não se conhecem mais. Independente se faz um ano ou décadas de separação, sempre haverá um vácuo a se preencher entre os personagens. E quer uma relação mais complexa para se resolver do que entre pai e filho(a)?

O desconforto e a indiferença  

A direção feminina de SOL sobre personagens masculinos imperfeitos, que estão longe do ideal, é um ponto espetacular, por oferecer esse olhar contemplativo sobre feridas e sentimentos engasgados. O desconforto de Theo é evidente, assim como a indiferença de Theodoro. Duda é a única ligação estimulante entre os dois, que ainda mantêm a civilidade em respeito e carinho com a menina que, de certa forma, representa um fio de esperança para a paternidade deste filme.

O filme é preenchido por interpretações intensamente contidas. Rômulo Braga é Theo, um artista plástico introspectivo que tenta se aproximar da filha que, assim como ele, também nutre uma paixão pela arte. O ator tem um trabalho desafiador em dizer muito sem falar quase nada com o seu personagem que possui mar de emoções internalizadas. Mais brilhante que ele em cena, somente Everaldo Pontes que passa boa parte da história calado, apenas respondendo pelas suas expressões e olhares que dão o tom do seu triste personagem. Em contrapartida, Malu Landim é a alma viva que usa da ingenuidade para atrair o que ainda há de positivo de cada pai da história.

SOL é um filme que é dito no silêncio, pois é no silêncio que mora tudo o que a gente sente. É no silêncio que encontramos respostas. É no silêncio que muita coisa precisa ficar. 

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