Aldeotas: a formação da identidade e da invisível sensibilidade masculina

Aldeotas nasceu nos palcos de teatros. Escrito e dirigido por Gero Camilo, o ator levou essa poética história para as telas do cinema ao lado de Marat Descartes e, ao mesmo tempo, faz a sua estreia como diretor de cinema com este filme autoral sobre amizade. Uma amizade que, mesmo após uma significativa separação de corpos, ainda se mantém viva no coração. É assim que o longa-metragem de Camilo relembra o passado de Levi e Elias, dois amigos que cresceram em uma pequena e conservadora cidade do interior do Brasil. Juntos, aprenderam, sonharam e sobreviveram – até certo ponto – naquele lugar que era pequeno demais para eles.

A narrativa acompanha esses dois amigos que sonhavam partir juntos para uma cidade grande e urbana mais liberal. Levi, poeta, cansado de sofrer abusos por conta da sua natureza, cumpre o plano de fugir após se formar no ensino médio. Elias, oprimido pela violência do seu pai, não tem a mesma coragem. Aos 50 anos, Levi volta para reencontrar o amigo no dia de seu funeral, onde as memórias dos dois são revividas antes do último adeus. Esse reencontro dá início à poesia e ao imaginário da melhor fase da dupla que parece nunca ter se separado em vida.

A poesia da memória 

Com uma linguagem poética, o filme assume uma postura surreal e criativa de resgatar o passado afetivo de Levi e Elias, em que é mais do que necessário abraçar a brincadeira de se juntar a Camilo e Descartes quando ambos interpretam as diversas fases dos personagens, começando lá na infância até chegarem o modo adulto. Vê-los percorrendo os caminhos da amizade e da construção de suas respectivas identidades, é possível entender onde estão as suas sensibilidade, onde estão os seus pontos vulneráveis e onde estão as chaves para impulsionar o crescimento de cada um. Por se tratar de uma amizade masculina, Aldeotas também abraça a inocência e o companheirismo que se forma espontaneamente e independente das forças repressoras que insistem em rodear quem é diferente e quem é oprimido.

É impossível não se apaixonar por Gero Camilo em cena e o seu jeito brincalhão, ingênuo e sonhador de ser. Tanto ele quanto Marat Descartes vão a fundo na imaginação proposta de Aldeotas, que é honrar as memórias afetivas de dois homens que morrem de saudades um do outro, que se protegeram e se amaram em suas frutíferas juventudes. Aldeotas tem camadas profundas, sensíveis e libertadoras sobre como as amizades têm papéis fundamentais na nossa formação como seres. Mesmo que distantes, sabemos que eles estarão lá dentro do nosso coração, fazendo parte de nós.

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