5 Casas: um filme que confronta o passado e acolhe quem restou dele

5 Casas é um filme com muitos relatos pessoais

Raros são os documentários de cunho pessoal que conseguem se expandir e dar voz a outras histórias que também precisam ser ouvidas. 5 Casas é um filme introspectivo que usa das memórias da infância do diretor Bruno Gularte Barreto para se conectar com a de outras 4 pessoas que relembram um passado doloroso ainda presente dentro delas e que, de alguma forma, se entrelaçam na vida do protagonista que narra a sua história ao revisitar Dom Pedrito, uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul, após duas décadas. 

Uma velha professora lutando para manter sua casa de pé, um jovem gay que sofre agressões por se recusar a esconder a sua natureza, uma freira sendo transferida da escola que regeu com punho de ferro por décadas, um velho capataz em uma fazenda mal assombrada e um menino cujos os pais morreram há 20 anos da mesma doença. São histórias distintas, mas que juntas pintam um retrato pungente de um Brasil marcado por apagamentos, desigualdade e preconceitos.

É assim que o diretor costura os dramas de quatro personagens que fizeram parte da sua infância que não foi repleta de brincadeiras e sorrisos. Perder a mãe e o pai tão cedo deixou marcas profundas no diretor que confronta o seu passado, revirando as memórias guardadas dentro de caixas que não viam a luz do dia desde que foi embora com os seus irmãos daquele lugar que já estava esquecido do seu consciente. É curioso que a volta de Bruno a Dom Pedrito se faz por conta dessas lembranças que escaparam da onde estavam guardadas, quase como se estivessem enterradas, mas que voltam à tona de supetão para que o cineasta possa acolher sentimentos que perpetuam internamente. Pois a vida é assim mesmo, age inesperadamente, quer que a gente esteja pronto ou não para passar por dores inexplicáveis. 

Fotos que desencadeiam o passado

Por isso, é muito simbólico que a última foto da infância de Bruno tenha sido tirada quando os seus pais ainda estavam vivos, como se aquela fase da sua vida tivesse sido encerrada abruptamente nesta época, naquela cidade. Mas Bruno sabe que não está sozinho quando o assunto é dor e solidão em Dom Pedrito.

A sua narração contida e enfraquecida como se estivesse criando, aos poucos, coragem para compartilhar com o público a sua e as demais histórias, conduz o clima melancólico para que os demais personagens de 5 Casas também possam contar as particularidades e as angústias que viveram naquele local. Alguns, inclusive, parecem terem esperado por esse momento para, enfim, seguir em frente. O privilégio da proximidade do diretor com os entrevistados contribuiu para que a narrativa se tornasse natural, favorecendo essa troca de intimidades. 

“As memórias deles são parte da minha história, e registrar as nossas conversas é uma forma de lhes dar voz”, reflete Bruno. “Não é apenas uma forma de contar a minha história, mas sim de contar a nossa história através da voz deles”, conclui.

Como dito no início, é raro um documentário ser criativo, indo além do tradicional, para relatar uma tristeza compartilhada. 5 Casas é belíssimo e desolador, sendo um registro cinematográfico potente de algo que se tornou muito maior do que aquela pequena cidade gaúcha. Ele não é egoísta. É um filme que confronta o passado e acolhe quem restou dele.  

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