Última Cidade: a distopia para enfrentar a perda de tudo

Taihel e João percorrem as ruas cearenses após perderem suas terras

Em apenas 70 minutos, Última Cidade, dirigido por Victor Furtado, fala muito sem precisar dizer tanto fazendo uso da distopia, do caos e da liberdade poética do Cinema. O filme apresenta dois cenários do nordeste brasileiro – o interior e o urbano – em que João (Julio Adrião) que, ao lado de seu cavalo e um andarilho, busca enfrentar aquele que destruiu sua vida. E aqui, o companheiro de caminhada do protagonista, Tahiel (Hector Briones), se compadece da situação, por também ter tido as suas origens roubadas pela “cidade branca”, como ele mesmo menciona. Falas simbólicas que resumem praticamente toda a história dos personagens que já não tem mais nada a perder.

Para aquelas que prezam pelo esperado e algo mais “mastigadinho”, Última Cidade não é um filme fácil de digerir. Por querer enfatizar a dramaticidade de João, Furtado busca por meio de gêneros cinematográficos transparecer a emoção frustrada, agoniada e confusa deste homem que caminha até a “cidade grande” para defender o que lhe é seu de nascença: as suas terras. É interessante como os momentos de contemplação podem ser interpretados como devaneios, colocando em dúvida a realidade do protagonista desorientado e exausto da sua luta. Ao longo da jornada, ele encontra paralelamente outros indivíduos que trazem um respiro ao sufoco de João. Aqui, destaco o monólogo da senhora que compartilha conosco – sim, conosco – a sua viagem na Europa ao lado da filha e do modo como foi tratada pelos estrangeiros.

João e seus devaneios em meio a sua caminhada

Mas um filme com a proposta apocalíptica como a de Última Cidade só seria capaz com o domínio em cena de um ator completamente entregue como fez Julio Adrião. Mesmo com tão poucos diálogos, ele carrega tanto do João no seu corpo, na sua energia e, principalmente, no seu olhar. É através dele que entendemos a crítica ao capitalismo, ao meio opressor que transita e à especulação imobiliária, temas que têm sido recorrentes no nosso Cinema nacional. Afinal, cada vez mais estamos enxergando prédios e mais prédios por aí e, consequentemente, mais Joãos sem terras. Última Cidade estreia dia 21 de julho nos cinemas brasileiros. 

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