A Jaula tenta refletir sobre justiça feita pelas próprias mãos no Brasil

Chay Suede e Alexandre Nero são protagonistas do thriller

Baseado no longa argentino 4×4 (2019), A Jaula é o primeiro longa de ficção dirigido por João Wainer, que já tem no seu currículo os documentários Pixo e Junho – O Mês Que Abalou o Brasil. Estrelado por Chay Suede, o filme tem a ambição de ser daqueles thrillers psicológicos intensos, dos quais sentimos cada sufoco que o protagonista passa ao longo da trama. No entanto, esta pretensão fica pela metade ao não ir a fundo a tudo que propõe em cena.

Djalma (Chay) é um ladrão que tenta roubar um carro luxuoso, mas é encurralado em uma armadilha que o dono do veículo idealizou para se vingar das inúmeras vezes que foi vítima de assaltos e roubos. O Dr. Henrique (Alexandre Nero), como gosta de enfatizar, resolve fazer justiça com as próprias mãos ao aprisionar Djalma dentro do automóvel sem oferecer qualquer tipo de mantimento para o prisioneiro ou alguma reflexão para o espectador. No fim das contas, A Jaula acaba sendo o espetáculo pelo espetáculo, assim como é visto em noticiários sensacionalistas que não perdem um segundo das tragédias urbanas. E aqui parece se aproveitar da situação apenas pelo choque, mas não há nada por trás da barbárie.

O diretor João Wainer traz um conceito defendido por apoiadores do atual governo, de que bandido bom é bandido morto e quem vai fazer justiça são eles mesmos, na tentativa de ser uma crítica sagaz sobre o sistema que bolsonaristas tanto sentem orgulho para que a sociedade volte a ser somente para os cidadãos de bem. Porém, o debate da história é tão raso, que Wainer não parece ter um direcionamento preciso ao que ele quer falar neste filme. Ele quer ironizar a elite justiceira? Quer que a gente tenha empatia pelo criminoso? Que somente as autoridades devem combater a criminalidade? Enfim, falta objetividade ou até mesmo uma subjetividade mais provocativa do que apenas colocar duas pessoas fazendo coisas erradas em episódio cotidiano que não existem “mocinhos”.

Alexandre Nero representa quem defende a justiça feita pelas próprias mãos

Após torturar psicologicamente Djalma pelo viva voz, Dr. Henrique toma forma através de Alexandre Nero quando o personagem resolve tomar medidas mais drásticas quanto ao seu prisioneiro. Por mais que ambos os personagens tenham entregado tudo o que podiam aos seus respectivos papéis, A Jaula pedia, talvez, interpretações mais intensas e lunáticas. Afinal, trata-se de uma história em que é focado integralmente em um personagem preso em apenas um cenário e na voz de outro que quer intimidar de longe. Na verdade, o roteiro, escrito por João Cândido Zacharias, poderia ter sido mais astuto e malicioso no encontro entre estes dois opostos ao invés de fazê-los tão óbvios nos diálogos. No entanto, há de se reconhecer as boas pegadinhas que o enredo vai colocando conforme o passar do tempo. 

A Jaula tinha tudo para ser daqueles filmes perturbadores, que não te deixam dormir sem que flashes voltem para te assustar ou questionar, ao ver um carro parado, se não há ninguém lá dentro. Mas, por ser tão incompleto no que queria discutir, não instiga reflexões ou revoltas sobre a legalidade da violência que se instaurou nas nossas ruas, por pessoas que acham que detém o poder de decidir a justiça da vida apenas por conta dos seus títulos. Falar por falar, não vai mudar a situação do nosso país. 

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