Deserto Particular: o Brasil que precisa de amor

Antonio Saboia é Daniel em Deserto Particular

Deserto Particular é um daqueles filmes difíceis de explicar, mas fáceis de guardar. Dirigido por Aly Muritiba, o longa não poderia ser uma representação fiel de um Brasil contemporâneo que ainda se alimenta do conservadorismo que oprime e deixa heranças. Daniel (Antonio Saboia) é o próprio fruto de uma família tradicional brasileira, que teve como patriarca um militar que sobrevive do que sobrou das gloriosas memórias do passado. O filho seguiu uma profissão que também visa a proteção, tornando-se um policial. Mas, ao extrapolar a sua autoridade e colocar a sua carreira em risco, o protagonista começa a refletir sobre a sua pacata vida. No meio disso, ele encontra em Sara, a sua webnamorada, um escapismo da sua realidade entre cuidar do pai doente e da indefinição do seu futuro profissional. Literalmente um namoro à distância, o caso entre eles esfria quando a moça para de responder às suas mensagens. Isso é o estopim para Daniel largar tudo em Curitiba e ir atrás de respostas no interior da Bahia.

Inicialmente, a ideia de um homem ir atrás da mulher amada poderia ser totalmente romantizada. No entanto, a iniciativa de Daniel é mais um fruto de uma cultura machista de “pertencimento” sobre uma mulher, especialmente se ela aparenta não querer mais saber do relacionamento. O sumiço, claro, desperta curiosidade para saber o que aconteceu, afinal, tudo parecia tão bem. Mas, ao tornar isso uma obsessão, chegando a espalhar cartazes com imagens da moça na pequena cidade, é mais uma prova de que Daniel não entende do seu privilégio de homem, branco e hétero e faz o que bem entender em nome do amor. Não que isso seja um problema no filme. Pelo contrário, ajuda a entender ainda mais a bagagem do personagem.

A intimidade que liberta em Deserto Particular

Chegando no interior baiano, ele se depara com um homem misterioso (Thomás Aquino) que se diz amigo de Sara. Ao receber pistas da amada, Daniel começa, finalmente, a encontrar motivos para voltar a viver, a ser o homem que deseja ser. Mas, aos poucos, percebe que o amor não existe só do modo como ele sempre conheceu. Este é o ponto ápice de Deserto Particular que poderia, facilmente, ser mais uma história de amor, mas que se transforma em uma jornada de quebra de ciclos da toxicidade dos outros sobre nós. A partir daí, o filme, também roteirizado por Muritiba ao lado de Henrique Dos Santos, também começa a se abrir para outro deserto particular, o de Robson (Pedro Fasanaro), um jovem gay que também foi criado dentro de uma comunidade conservadora, que tem a religião como norte moral.

Deserto Particular tem esse choque de realidades completamente diferentes, mas que se complementam pelo que cada personagem esconde. Se Daniel vive em uma sociedade acomodada pela masculinidade tóxica, Robson precisa andar na linha para não desagradar o que está escrito na Bíblia. Esta colisão de “desertos”, feito um eclipse que somente Bonnie Tyler saberia cantar, só reforça como eles precisam um do outro. Sem se darem conta, ambos têm a vida reformulada a partir de um afeto que nunca deixou de ser sincero, íntimo e seguro, apenas chegou de um modo diferente.

Gosto como Deserto Particular trata de algo que é frágil, que é a intimidade, em que apenas duas pessoas vão saber o que cada uma passa, de um modo incomum, através de sustos e libertação. Pois, esse momento particular entre eles é a base que sustenta e empurra o outro. E isso é muito poderoso. Fazer do amor que nasce da confiança de um desconhecido a força para encarar a vida. Deserto Particular é a melhor representação que o Brasil poderia ter no cinema: um retrato de um país que precisa de amor. 

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