Quando tiver oportunidade… Assista!

Paris Is Burning retrata as ruas e boates de Nova York protagonizada por drag queens

O universo LGBTQ tem me prendido bastante atenção nos últimos tempos, especialmente quando se trata de conteúdos audiovisuais. Não bastasse ficar totalmente viciada no reality show RuPauls Drag Race, uma competição entre 12 travestis com as mais variadas personalidades que disputam a coroa de quem vai ser a próxima estrela drag dos Estados Unidos, o assunto tem me feito ir mais atrás de produções que abordem a temática para mergulhar de fato nesta arte.

No programa comandado por RuPaul, que é maior referência pop do mundo drag, há mais do que apenas maquiagens e vestidos para exaltar a beleza de cada artista, mas espaço para entendermos como foi que tudo isto começou. Em todas as temporadas, RuPaul faz questão de mencionar o documentário Paris Is Burning (1990), que é da onde tira boa parte de seus desafios, inclusive o principal do programa: o desfile final sempre pautado por algum tema.

O filme dirigido por Jennie Livingston retrata os concursos realizados entre travestis em boates, momentos onde podiam enaltecer o seu alter ego, aquele que era tão maltratado pela sociedade. Aquelas casas noturnas era onde exaltavam a sua personalidade e tinham a liberdade de serem o que quisessem, sem medo de ser julgado ou pior, violentado. A verdade é que no final da noite, todas eram coroadas pelo talento e criatividade que desfilavam pelo salão. Há vários depoimentos de figuras consideradas importantes do movimento na época e que relatam suas histórias e de como a arte drag não só salvou a vida de alguns, mas como ajudaram a se autoafirmarem na vida. Paris Is Burning é tocante por ser registro de uma época que mudou a cultura pop e é um dos longas que valoriza a cultura gay por justamente mostrar o passado de antecessores do travestismo de Nova York. Claro que aproveitando o embalo de RuPaul, a Netflix aproveitou e inseriu o filme em seu catálogo para os curiosos, como eu, apreciarem esta bela obra divertida e que fará RuPaul’s Drag Race ter muito mais sentido.

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Marsha Jonhosn foi uma ativista pelos direitos dos homossexuais nos EUA

O segundo filme que a Netflix colocou à disposição recentemente foi The Death and Life Of Marsha Johnson (2017), uma produção original da plataforma, dirigida por David France. Marsha Johnson não é uma figura conhecida no Brasil, mas o documentário me interessou por ser um retrato mais triste da cena LGBT. A ativista transgênero, drag queen, prostituta e modelo de Andy Warhol foi encontrada morta no Rio Hudson, em Nova York, no início dos anos 1990 e a polícia considerou a morte de Marsha como suicídio, mesmo com vários sintomas de agressão física em seu corpo, demonstrando zero interesse de investigar o caso.

O longa é conduzido pela também ativista transgênero Victoria Cruz, que está prestes a se aposentar de uma organização voluntária que protege e defende os direitos de pessoas LGBTQ, e resolve ir atrás do verdadeiro assassino de Marsha Johnson para tentar fazer justiça pela última vez. Entretanto, conforme sua investigação, vamos tendo a consciência do total descaso que autoridades ainda possuem com a comunidade gay e reforça o quanto ainda são injustiçados e marginalizadas por causa das suas identidades.

O documentário intercala com outro caso mais recente de uma jovem transgênero que foi morta por um rapaz que acusa a vítima de tê-lo enganado em relação ao seu gênero. Casos que ainda são frequentes pelo mundo todo. Inclusive no Brasil. Assim como Paris Is Burning, o filme é mais um registro de uma pessoa importante para a história do movimento gay, que lutou e conquistou a liberdade que muitos aproveitam diariamente nos Estados Unidos. Conhecemos um pouco de quem foi Marsha Johnson, que era feliz e dividia cada pão que tinha para ajudar o próximo e que juntamente com a sua melhor amiga na época, Sylvia Rivera (1951-2002), criou o abrigo intitulado Star para acolher pessoas sem teto e que eram expulsas de casa após se assumirem gays. The Death and Life Of Marsha Johnson é uma forma de tentar fazer justiça à Marsha e à outras ativistas que lutam por seus mais simples direitos humanos.

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Divinas Divas registra a história de 8 travestis no Brasil nos anos 70

Seguindo na onda de documentários, que se transformou em um dos gêneros que tenho tido mais prazer em assistir, o Divinas Divas (2017) é um perfeito exemplo de travestis que fizeram história no Brasil. O filme, que marca a estreia da atriz Leandra Leal na direção, é uma respeitosa homenagem às artistas que foram pioneiras na arte drag no País na década de 1970, época da forte censura imposta pela Ditadura Militar (1964-1985). Algo que não foi uma barreira para as oito protagonistas do longa, que contam as suas histórias pessoais e profissionais, de se apresentarem em clubes noturnos do Rio de Janeiro e que relembram como era estar sob os holofotes do palco. Mas claro que no raiar do dia, tudo mudava de cor. Entre os depoimentos, há vários momentos tristes como lembranças de agressões por serem “homens que se vestem de mulher”, pois algumas assumiam a identidade feminina além dos palcos, e internações por parte da família na tentativa de “correção”.

Divinas Divas traz tantas histórias incríveis e emocionantes que estavam debaixo dos nossos narizes e não percebemos como a nossa cultura drag e trans também é rica e forte. Entre as entrevistas está a “travesti da família brasileira”, a atriz e cantora Rogéria (1943-2017), que faleceu recentemente e é umas personagens mais marcantes e lembradas na nossa cultura. O longa conta com a participação da Leandra como narradora não só das histórias destas mulheres, mas dela própria também. Ela revela que cresceu cercada de travestis devido a sua família de atores e de como isso contribuiu para sua formação, e claro atiçou a sua curiosidade, que resultou neste documentário.

O filme não só traz a discussão da arte do travesti no Brasil, mas como envelhecer é uma merda, literalmente. Afinal, esta etapa da vida também afeta a vida de artistas, e estes artistas controversos sofrem com o esquecimento em dobro. Mas para reviver o grande espetáculo do travestismo, o filme acompanha a preparação do aniversário de 70 anos do Teatro Rival, onde estas Divas fariam um show comemorativo. E a partir daí, este cruzamento de histórias apenas deixa Divinas Divas cheio de significações e se torna uma viagem fabulosa. Não faz muito tempo que DD entrou na programação do Canal Brasil, então quando tiver oportunidade… Assista!

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