Uma Mulher Fantástica ★★★

Uma Mulher Fantástica estreia hoje nos cinemas levando para o público o relato dolorido da perda de um grande amor e as consequências de ter que lidar com a família conservadora do amado. Entretanto, o sofrimento que o público irá assistir será completamente em dobro devido a protagonista ser uma mulher transexual e sofrer absurdamente com preconceitos vindos de todos os lados da história. Esta é uma das denúncias que é possível presenciar no longa dirigido pelo chileno Sebástian Melo, que já reproduziu outras momentos femininos no seu último trabalho Gloria (2013) e mais uma vez, traz um outro universo protagonizado por uma mulher para os fãs de um dramalhão.

No filme, Marina (Daniela Vega) é uma garçonete e cantora que namora Orlando (Francisco Reyes), um homem mais velho, e que inesperadamente, morre no dia do seu aniversário após uma romântica comemoração. A partir daí inicia uma série de humilhações que envolvem médicos, policiais e principalmente da família do falecido, que não esconde por um momento a vergonha de ver a protagonista como a escolhida daquele pai e marido exemplar. O diretor Sebástian Melo escolhe cuidadosamente a forma como exibir estes constrangimentos que a personagem desnecessariamente passa, mas ao mesmo tempo, faz com que o espectador compreenda esta violência diária que uma transexual vive na sociedade. É interessante também como Melo apresenta o íntimo de Marina, que foge de qualquer esterótipo, que friamente tem que absorver todo o avalanche que ocorre em questão de 24 horas e que nem por um momento, deixa de ser esta mulher fantástica em cena.

A atriz Daniela Vega imprime caprichosamente uma personagem abalada com os acontecimentos e que quando menos se espera, surpreende com cenas como o ataque em cima da ex-mulher no funeral do namorado e principalmente com a sua performance final. Se à primeira vista, a protagonista Marina possa aparecer sem expressão, é possível sentir a sua necessidade de um carinho neste momento tão maluco na sua vida. Retrato que o longa apresenta delicadamente quando Marina visita seu professor de música, sendo este o único a enxergá-la sem filtros.

Cenas como esta, cheias de significados e que preenchem fortemente a história, também são expressados durante o longa quando Marina encontra na música o seu refúgio para expressar a dor, ou nos minutos finais quando se depara com o vazio de um armário, simbolizando materialmente a herança que, infelizmente, o amado lhe deixou. A resistência e força deste conjunto apenas reforçam o título de Uma Mulher Fantástica que é atribuído para todas as Marinas deste mundo.

• Texto escrito originalmente para o site Correio do Povo 

Una Mujer Fantástica (2017) | Direção: Sebastián Melo | Roteiro: Sebastián Melo e Gonzalo Maza | Elenco: Daniela Vega, Francisco Reyes, Luis Gnecco, Aline Küppenheim, Sergio Hernandez e Antonia Zegers | Nacionalidade: Chile | Gênero: Drama | Duração: 1h44min

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