Festival de Cinema de Gramado completa 45 edições comemorando resistência

O Matador, de Marcelo Galvão, fará sua estreia no Festival de Cinema de Gramado

Fazer cinema no Brasil não é nada fácil. Desde a concepção da história até subirem os créditos finais nas salas de cinema é um longo caminho. Muitos nem fazem ideia do que acontece por trás das câmeras. Produzir um festival então, tampouco é um exercício tranquilo. Neste cenário, o Festival de Cinema de Gramado chega à 45ª edição de forma ininterrupta celebrando sua resistência em um País que já sofreu muito culturalmente.

Dos anos da Ditadura Militar, onde a censura predominava sobre a liberdade de expressão, até o fim da Embrafilme, que era responsável por fomentar a produção e distribuição de filmes brasileiros, o Festival arranjava estratégias de se manter ativo no Brasil, como fez quando integrou filmes latino-americanos na sua programação. Segundo o jornalista, crítico de cinema e um dos curadores do Festival Marcos Santuario, o evento é digno de aplausos. “O Festival nasceu e cresceu sendo o principal palco de exibição e da discussão cinematográfica brasileira. Fazer 45 anos sem nunca ter parado uma única edição merece aplausos”, reflete. “Passa governos, curadores, políticas econômicas e o Festival segue. Dentro dessa perspectiva de acompanhar o crescimento do movimento brasileiro, latino e mundial, a gente só tem que reverenciar essa gente que durante todo este tempo fez o Festival de Cinema de Gramado existir”, complementa.

Colega de Santuario na curadoria do Festival desde 2012, o jornalista especializado em cinema Rubens Ewald Filho relata que tanto o público quanto os realizadores desejam participar do evento. “O fim da Embrafilme matou tudo e a cidade de Gramado custou um pouco até se recuperar. Mas agora que voltou os olhares para o cinema, as pessoas ficam louquinhas para vir para cá”, brinca. Rubens também observa que o Festival só tende a crescer. “Graças ao sucesso dos últimos anos, em especial ao ano passado, tudo mudou paras pessoas verem que há uma possibilidade a mais em Gramado”, declarou.

Rubens e Santuario integram a curadoria do Festival de Cinema de Gramado desde 2012. A diretora argentina Ewa Piwowarski entrou para o grupo em 2014. O sonho de ter o filme vinculado com o Festival de Cinema de Gramado, que ocorre entre os dias 17 e 26 de agosto, é um dos prestígios que muitos diretores desejam ter no currículo. Mesmo que não conquiste um Kikito, o “selo Gramado” nos longas selecionados pela curadoria demonstra uma qualidade em cima daquele trabalho, garante Santuario. “Quando selecionamos um filme para Gramado, ele é exibido e ganha toda mídia cinematográfica, produz um diálogo e um selo de Gramado, pois ele passou por um processo de exibição, discussão e análise”, explicou.

Gramado é o novo Cannes

Observando as mudanças que também ocorrem no cinema, a dupla afirmou que a discussão de novas tecnologias e novas formas de exibição devem ser discutidas no universo cinematográfico. Aproveitando o embalo da polêmica do Festival de Cannes deste ano ao ter o filme produzido pela Netflix, OKJA, entre os selecionados para mostra competitiva, a 45ª edição do evento serrano fará a primeira exibição do primeiro filme original Netflix produzido no Brasil, O Matador, de Marcelo Galvão.

“Eu briguei para trazer um filme do Netflix para cá, justamente para ter polêmica”, afirma Rubens. “Nós somos os primeiros a trazer um filme do Netflix, e Cannes fez aquele escândalo, foi uma burrice deles. Não se luta contra certas coisas. Com o progresso a gente não luta, a gente adere e se adapta”, opina o jornalista sobre levar filmes produzidos por plataformas on demand para as tradicionais salas de cinema.

Para Santuario, esta discussão de levar filmes produzidos pela Netflix é inevitável. “O cinema ainda pode ser um lugar de exibição, mas ele tem que abrir este caminho para outras formas de exibição. Gramado está aberto para isso e trazendo pessoas que inovam neste processo”, diz. “Nós estaremos parados no tempo e de costas para realidade, pois já existem diferentes maneiras de produzir, distribuir e exibir produções, e isso inclui o cinema que precisa ser repensado nessa ótica. A estratégia de distribuição do Netflix não inclui as salas de cinema e esta vai ser uma discussão muito interessante. Nós estamos aceitando o desafio e isto vai acontecer no Festival”, acrescenta.

Filmes inéditos e de qualidade

Projetando este aniversário significativo do Festival de Cinema de Gramado, Rubens acredita que a seleção deste ano foi a melhor já realizada pela curadoria. “Eu tenho a impressão que temos a melhor seleção desde que estou aqui. São filmes inéditos no Brasil, premiados e polêmicos”, analisa. “O que eu quero é melhorar as coisas para Gramado crescer, dos filmes só melhorarem e fazer novos cineastas serem revelados. Tudo isso me dá muito prazer e alegria”, pontua.

Conforme Santuario, o Festival vai exibir sete filmes inéditos no Brasil, sendo que quatro passaram somente em âmbito internacional e três são totalmente inéditos no País. “Os diretores querem Gramado como seu primeiro palco e estes filmes compõem um universo muito amplo da cinematografia contemporânea. Os diretores dialogam com novas possibilidades e é isso que a gente tenta apresentar todo ano para as pessoas entenderem que o cinema está mudando, o Brasil, o audiovisual estão mudando em vários aspectos”, afirma. “São filmes capazes de promoverem o diálogo mais amplo com o público, e isto inclui a cidade, o mercado e a crítica cinematográfica. Isso aproxima o cinema das pessoas.”, conclui.

  • Matéria escrita originalmente para o site do Correio do Povo 

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