Pequeno Segredo

segredoDireção: David Schurmann | Roteiro: Marcos Bernstein, Victor Atherino e David Schurmann | Elenco: Julia Lemmertz, Marcelo Anthony, Mariana Goulart, Maria Flor, Erroll Shand e Fionnula Flanagan | Gênero: Drama e Biografia | Nacionalidade: Brasil | Duração: 1h48min

Pequeno Segredo nem tinha chegado nos cinemas e já era alvo de ataques por aí. O filme dirigido por David Schürmann foi o escolhido para representar o Brasil na corrida por uma vaga entre os indicados para Melhor Filme Estrangeiro do Oscar 2017. Só que um dos principais requisitos a ser preenchido era ter estreado nos cinemas antes de setembro, mês em que a comissão do Ministério da Cultura realizaria a votação para escolher qual longa enviariam para a Academia das Artes e Ciências Cinematográficas. Mal recuperados de um golpe na política, os cinéfilos viram seu sonho de ver o favorito Aquarius, de Kléber Mendonça Filho, se desmanchar ao ver Pequeno Segredo como o selecionado. O filme se encaixa no que Zeca Pagodinho canta no samba Caviar: “nunca vi, nem comi, só ouço falar“. Até que finalmente no último dia 10, o Brasil teve a oportunidade de assistir quem irá jogar nas “Eliminatórias da Copa do Mundo do Cinema”.

Totalmente desarmada para exibição, abri a mente e o coração para Pequeno Segredo, já que independente da escolha, se não fosse Aquarius, a birra poderia cair em cima de qualquer outra produção. Entretanto, com o título e a sinopse, o longa está longe de ser um segredo e muito menos pequeno. A família Schürmann é conhecida por ser a primeira tripulação brasileira a dar a volta ao mundo em um barco. Numa destas viagens, Heloísa (Julia Lemmertz) e Vilfredo (Marcello Anthony) se tornam amigos de Jeanne (Maria Flor) e Robert (Erroll Shand), que descobriram que vão se tornar pais. Porém, após alguns acidentes na vida, o casal acaba entregando a filha Katherine (Mariana Goulart) para os Schurmann a adotarem. Na verdade, durante a projeção, o grande mistério acaba em volta de como os pais biológicos de Kat acabaram contraindo o vírus HIV, já que desde início apresentaram-se como um casal saudável e sem o histórico. O diretor escolheu uma narrativa dinâmica com estas duas histórias em paralelo e tornou Pequeno Segredo mais interessante do que esperado neste aspecto. Com a intercalação do passado e presente se difundindo na tela, o filme não fica maçante durante o seu andamento e deixa na expectativa qual será o próximo passo.

É inegável que as mães de Pequeno Segredo são as responsáveis por emocionarem o público. Maria Flor é a jovem que encontrou o amor e enfrenta todas as dificuldades para seguir com seu relacionamento. Os fatores de se tornar mãe e descobrir a doença logo em seguida, são o suficientes para cortar o coração de quem a assiste. Julia Lemertz interpreta a matriarca dos Shürmann e é praticamente quem abraça a causa. Além de ter que ajudar a amiga Jeanne, Heloísa também terá que lidar com a avó biológica de Kat, Barbara (Fionnula Flanagan). A atriz apresenta uma personagem equilibrada e que procura sempre uma maneira de agradar quem está na sua volta. É perceptível todo envolvimento que Julia teve com a história da família e a dedicação que teve com o filme, mostrando que era a mãe de todos. Principalmente com a estreante nos cinemas, Mariana Goulart, sua filha em cena. Mas quem tem um bom destaque é Fiounola Flanagan. Ela acaba se destoando do resto do elenco por ser a personagem inconveniente que não gosta da nora. O que rende vários momentos de conflito e quebra um pouco o ritmo “certinho” que o filme tem. Infelizmente não se pode dizer o mesmo  dos papéis de Marcelo Anthony, que mal se percebe a presença, e Erroll Shand, que entrega um personagem duro, que não transmite nenhuma empatia e tampouco combina com Maria Flor.

Pequeno Segredo não é um filme de entretenimento e muito menos de arte, mas um documento muito pessoal dos Schürmann. A verdadeira Heloísa revelou que este longa serviu, assim como o livro que escreveu, como uma conclusão de uma parte da sua vida e uma homenagem para sua filha. O que não deixa de ser verdade. Afinal, Kat a recém tinha descoberto que era soropositiva e queria contar pessoalmente para todos. Porém, não teve tempo necessário para finalizar a tarefa. Este e todos os incidentes que aconteceram nestas duas famílias, só poderia resultar em uma história carregada de dramas extremamente particulares. O diretor David Schürmann teve muita delicadeza em retratar a sua irmã e deixar o desenvolvimento o mais fiel possível na tela, servindo realmente como um registro deste período na vida da sua família.

O filme está longe de ser ruim, mas acaba depositando a sua força em sentimentalismos para atingir o fundo do peito do mais ogro da plateia. A principal proposta de Pequeno Segredo é transmitir o amor e a solidariedade que os Schürmann tiveram com a adoção de Kat. E isto é mais do que evidente dada as circunstâncias. Existe o amor, a compreensão, a felicidade, o dinheiro, e principalmente, existe a conscientização sobre o vírus HIV. Mas o filme aposta mais nas lágrimas e suspiros de uma história bonita do que numa reflexão mais intensa e marcante. É o típico que te seduz pela beleza, mas que logo se esquece quandro dobra a esquina, sabe? Revelando o segredo que todos queriam saber, ou melhor, já sabiam: é bonitinho, mas não é Aquarius.

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